sábado, 7 de novembro de 2015

A poesia prevalece!



Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(Carlos Drummond de Andrade)

Uma Singela Homenagem ao grande Carlos! Não o Roberto, o Drummond mesmo. Sobre o primeiro, não caberia uma postagem.


 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Fatigado de Penumbra.

Sobre o reflexo de um vidro molhado, sinto um gosto amargo. O café já esfriou e acabou o açúcar. Acabou-se o doce, o sabor das coisas, das situações. Numa lógica mais proximal, não seria a solução comprar um açúcar novo? Acabou-se o estoque. Portanto, não há doce para o café. O único gosto que há é aquele amargo encrostado do aroma queimado de uma cafeteira. E ao lado, próximo a cesta de pão, está o jornal... Este não acabou em matéria mas, sobre aquilo que mais importava naquelas palavras periódicas, acabou-se. As boas notícias. Não há mais... Não verei - talvez - a esperança de uma melhoria, a diminuição de uma violência abrupta, mas sim seu crescimento exponencial... Acabou-se, portanto, o açúcar. A vida não é mais doce: o café desce quadrado sobre a leitura rápida daquelas mesmas notícias de morte e corrupção, "queda no PIB aumento da inflação";quase um jingle de campanha eleitoral, só que, ao contrário, neste partido ninguém votaria...  Mas votou. E não voltou atrás... A grande conduta está em ser aquilo que é mais fácil, acreditar que tudo pode melhorar...Já não é mais esperança, mas sim a crença em ignorar um problema, buscar outras soluções.(...) Estou cheio. "Vou me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei"? NÃO. Deixemos assim, vamos aprender a amá-lo. E talvez reconstruir a palavra esperança em todas suas esferas. A esperança é um fósforo que se acende contra o vento, lutamos para mantê-la acesa mesmo que as chances de se apagar sejam grandes. Vamos acreditar! E se mobilizar um pouco, quem sabe.
Por enquanto, vou apreciando o amargo do café... Quem disse que gosto de muito açúcar? Depende do dia; algumas vezes é melhor mais amargo para acordar. O amargo é mais poético, faz despertar o âmago do ser. Para não estragar, encerro. Mas bem que pelo menos a chuva poderia cessar e todas as famílias desabrigadas pudessem reencontrar o caminho do lar. Afinal, quem sou eu para reclamar da vida?

Porto Alegre, Novembro de 2015.
Perambulando na Penumbra.