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O senhor Bardo Kowalski caminha pela rua nublada e reflete sobre sua vida. Quais são os motivos de tanta angústia? O que o faz acreditar que a insistência nas mesmas condutas irão gerar mudanças? Como proceder? Apesar do avanço no tratamento de sua doença e a respectiva melhora no seu humor, Bardo sente uma ansiedade fora do normal. E assim decide caminhar pelas ruas de um bairro ainda desconhecido. Ao caminhar, resgata do seu bolso o cachimbo e no ímpeto de querer acender, não encontra sua caixinha de fósforos, algo que atrapalha seu ritual diário. Kowalski dá meia volta e tenta se recordar onde ficaria aquele armazém que certa vez adentrou para comprar um pacote de gelo. Sua lembrança é vaga, difusa, visto que Bardo esteve no local em uma situação de total embriaguez. Relaciona ruas e nomes e então faz um esboço de um possível caminho. Guarda seu cachimbo no bolso, alisa os cabelos e retoma a caminhada. Ao chegar próximo ao local, Bardo acerta em sua previsão e encontra o armazém prestes a fechar. Por sorte, o dono o atende muito bem. Enquanto Bardo espera o atendente, escorado no balcão, faz uma breve análise dos objetos e ícones típicos de um armazém. Mas um dos ícones prende a sua atenção: a balança. A famosa balança de armazém está ali, um tanto empoeirada, mas em bom estado, prestes a encerrar o seu expediente de trabalho. Bardo esboça reflexões: Seria o trabalho da balança o mais difícil de todos? A balança equilibra as coisas, os seus pesos; dialoga com verduras e objetos, está sempre ali de prontidão. Um trabalho ao mesmo tempo simples e complicado?
Suas reflexões acabam se dissipando quando uma figura o distrai, uma mulher que chega e senta-se na mesa de fora do armazém. A mulher parece ter um pouco mais de trinta anos e parece tranquila, sem pressa. Traja um vestido azul claro e seus cabelos ligeiramente curtos balançam com o vento quente do verão. Seu ar inspira maturidade e empatia, seu belo sorriso hipnotiza. A análise de Bardo é interrompida pelo atendente do armazém, que chega se desculpando: - o Senhor me perdoe a demora, aqui está a sua caixa de fósforos. Bardo agradece e devagar, calculando seus passos, vai se aproximando da porta. Ao chegar a porta, Kowalski não consegue parar de olhar para esta mulher do sorriso empático e fascinante. Sente vontade de sentar-se junto da moça para poder conversar sobre qualquer coisa, mas um sentimento estranho recaí sobre Bardo, uma insegurança muito forte, que o faz transpirar pelas axilas. Uma luta dentro de seu consciente começa a ser travada: a vontade de agir versus a insegurança da negação, o julgamento prévio? A melhor abordagem? O dilema vai ficando mais confuso em sua mente quando, quase que junto com a brisa, surge um sentimento de serenidade e calma. E de repente aquela ansiedade fora do normal de que Bardo sofria, acaba indo embora junto do pôr-do-sol. Quando teria sido a última vez que o Sr. Bardo teria usufruído desse sentimento? Kowalski decide abolir o seu ritual diário: guarda no bolso o seu cachimbo e a sua então nova caixa de fósforos, desabotoa a camisa, respira fundo e então vai conversar com a mulher que está ali sentada. Seria uma noite incrível...
E assim foi,
conversaram e riram, saíram andando pelas ruas como dois jovens que ainda, de certa forma, eram. Conversaram com moradores de rua, beberam drinques e trocaram experiências. O calor da noite trazia um sentimento revigorante e a plena sensação de liberdade. No final, um beijo selaria aquela noite que traria um significado especial para Bardo e suas aventuras.
No dia seguinte, Kowalski acorda com o despertador e começa a sua labuta diária: o seu tratamento. Começa com a medicação e o desjejum, mas a noite que passara jamais seria esquecida...

