segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A noite e os seus sorrisos





O senhor Bardo Kowalski caminha pela rua nublada e reflete sobre sua vida. Quais são os motivos de tanta angústia? O que o faz acreditar que a insistência nas mesmas condutas irão gerar mudanças? Como proceder? Apesar do avanço no tratamento de sua doença e a respectiva melhora no seu humor, Bardo sente uma ansiedade fora do normal. E assim decide caminhar pelas ruas de um bairro ainda desconhecido. Ao caminhar, resgata do seu bolso o cachimbo e no ímpeto de querer acender, não encontra sua caixinha de fósforos, algo que atrapalha seu ritual diário. Kowalski dá meia volta e tenta se recordar onde ficaria aquele armazém que certa vez adentrou para comprar um pacote de gelo. Sua lembrança é vaga, difusa, visto que Bardo esteve no local em uma situação de total embriaguez. Relaciona ruas e nomes e então faz um esboço de um possível caminho. Guarda seu cachimbo no bolso, alisa os cabelos e retoma a caminhada. Ao chegar próximo ao local, Bardo acerta em sua previsão e encontra o armazém prestes a fechar. Por sorte, o dono o atende muito bem. Enquanto Bardo espera o atendente, escorado no balcão, faz uma breve análise dos objetos e ícones típicos de um armazém. Mas um dos ícones prende a sua atenção: a balança. A famosa balança de armazém está ali, um tanto empoeirada, mas em bom estado, prestes a encerrar o seu expediente de trabalho. Bardo esboça reflexões: Seria o trabalho da balança o mais difícil de todos?  A balança equilibra as coisas, os seus pesos; dialoga com verduras e objetos, está sempre ali de prontidão. Um trabalho ao mesmo tempo simples e complicado?

Suas reflexões acabam se dissipando quando uma figura o distrai, uma mulher que chega e senta-se na mesa de fora do armazém. A mulher parece ter um pouco mais de trinta anos e parece tranquila, sem pressa. Traja um vestido azul claro e seus cabelos ligeiramente curtos balançam com o vento quente do verão. Seu ar inspira maturidade e empatia, seu belo sorriso hipnotiza. A análise de Bardo é interrompida pelo atendente do armazém, que chega se desculpando: - o Senhor me perdoe a demora, aqui está a sua caixa de fósforos. Bardo agradece e devagar, calculando seus passos, vai se aproximando da porta. Ao chegar a porta, Kowalski não consegue parar de olhar para esta mulher do sorriso empático e fascinante. Sente vontade de sentar-se junto da moça para poder conversar sobre qualquer coisa, mas um sentimento estranho recaí sobre Bardo, uma insegurança muito forte, que o faz transpirar pelas axilas. Uma luta dentro de seu consciente começa a ser travada: a vontade de agir versus a insegurança da negação, o julgamento prévio? A melhor abordagem? O dilema vai ficando mais confuso em sua mente quando, quase que junto com a brisa, surge um sentimento de serenidade e calma. E de repente aquela ansiedade fora do normal de que Bardo sofria, acaba indo embora junto do pôr-do-sol. Quando teria sido a última vez que o Sr. Bardo teria usufruído desse sentimento? Kowalski decide abolir o seu ritual diário: guarda no bolso o seu cachimbo e a sua então nova caixa de fósforos, desabotoa a camisa, respira fundo e então vai conversar com a mulher que está ali sentada. Seria uma noite incrível...
E assim foi,
conversaram e riram, saíram andando pelas ruas como dois jovens que ainda, de certa forma, eram. Conversaram com moradores de rua, beberam drinques e trocaram experiências. O calor da noite trazia um sentimento revigorante e a plena sensação de liberdade. No final, um beijo selaria aquela noite que traria um significado especial para Bardo e suas aventuras. 
No dia seguinte, Kowalski acorda com o despertador e começa a sua labuta diária: o seu tratamento. Começa com a medicação e o desjejum, mas a noite que passara jamais seria esquecida...




quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Instável no mundo inferior da consciência

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Tétis mergulhando o filho Aquiles no rio Estige.

Não devemos nos preocupar com a instabilidade do tempo; apenas com a instabilidade emocional. Esta, assim como o tempo, tem dias que chovem  e tem dias que fazem sol. A questão é estar preparado, estar munido. Muitas vezes, erramos a previsão, algo que planejávamos, como um sol, torna-se um temporal. A isso, chamamos decepção. Decepcionar-se é um sentimento muito instável, pois enfraquece o ser, corrompe a alma e os bons costumes. O que afinal nos torna capacitados? Experiências e frustrações? Olhar e erro dos outros e com isso tentar aprender? Acho que não... O que nos prepara é o auto-conhecimento; é saber, assim como Aquiles, em que parte exata fomos mergulhados no Estige. Não apenas supor que nossa fraqueza esteja no calcanhar; daí a questão de tentar aprender com o erro dos outros... Autoconhecer-se é saber o que nos enfraquece e tentar esconder esse ponto fraco; lutar, ser forte e eternizar... Escondemos nosso ponto fraco pelo menos nos dias chuvosos, após isso, temos a livre escolha. Devemos trabalhar nossa imunidade e eternizar, visto que vivemos uma única vez e, lá em cima, as nuvens estão baixo de nós...lá em cima, não existem guarda-chuvas, bens materiais, não existem livros... Existe apenas o tudo e o nada.


sábado, 23 de janeiro de 2016

Ensaio de poema. In: "A escrita é a pintura da Voz"( Voltaire)

LI-TO-RAL
Sobre o asfalto ilustrado pelo efeito da Miragem,
sigo trilhando este caminho.
Pilotando na direção certa,
de acordo com as setas, nos encontramos.
O desejo é um; ou são três:
Pela palavra litoral, quero demonstrar algo legal,
Embora banal:
LI: reli e lerei;
TO: torrar, torrada, torneio de canastra;
RAL: Rally nas dunas, ralar no guarda-sol
e ralar a cenoura na cozinha improvisada da areia


          

  Eis o ócio criativo. A pintura da voz, de férias. Brindemo-nos!



Praia de Imbé, litoral sul do Brasil, "o patinho feio" dos litorais.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Sobre uma dissertação: Sociedade Alternativa.

Dissertei em uma prova sobre o tema: Brasil: Um país de possibilidades? 
Decidi por compartilhar com os satélites essa façanha; meio pessimista, nada fora do normal em se tratando de Brasil.

Sociedade Alternativa.

            Em meados do século XIX e início do século XX surgiu, no Brasil, uma onda significativa de imigrantes europeus, fugidos de conflitos ou crises econômicas, muitas vezes. Tal imagem foi concebida, de certa maneira, a partir de uma mentira que objetivava fazer deste imigrante, mão de obra local. Assim, o país não se mostra como um local de possibilidades, já que estas devem ser concebidas de uma forma honesta, menos restritiva e mais igualitária.
            Exemplos do período colonial, imperial e até mesmo republicano comprovam que o país sempre lidou com propostas inexatas perante a população. Não só na questão da falta de oportunidade ou, ainda, na falta de liberdade, mas também no sentido de as possibilidades gerais serem restritas a uma minoria, que o país pode ser caracterizado.
            Com base nisso, uma sociedade geradora de possibilidades deve ao mesmo tempo discutir as alternativas e dar a opção de expandi-las para todas as esferas. Existem, por exemplo, situações da história nacional em que a população ficou à margem de decisões importantes e, ao mesmo tempo, sem o direito de escolher um caminho.
            Raul Seixas, num período de liberdades limitadas, coloca em sua canção Sociedade Alternativa o seguinte: “Se eu quero e você quer / tomar banho de chapéu (...) / ou esperar papai Noel / Vá! Faça o que tu queres pois é tudo da Lei.” Nessa lógica, a discussão proposta não se relaciona em poder fazer tudo, ao contrário, a relação existente está em poder discernir aquilo que se acha prudente para cada realidade. Ainda assim, o segmento “se eu quero e você quer”, não abrange a situação de homogeneização de uma conduta, mas sim a uma situação de respeito e/ou reconhecimento perante o próximo, abrindo assim, grandes alternativas e possibilidades.

            O país, portanto, não está enquadrado em um local de oportunidades e de alternativas, já que tal conduta exige um esforço maior no tocante a oportunidades honestas e igualitárias. Assim, o cidadão brasileiro precisa buscar a sua sociedade alternativa, mostrando que deve estar presente nas situações relevantes e, ainda, tendo a sua liberdade de escolha. Dessa maneira, um país mais digno poderá ser construído diante de uma história exploratória, em que poucos poderiam “beber da fonte”.


sábado, 7 de novembro de 2015

A poesia prevalece!



Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(Carlos Drummond de Andrade)

Uma Singela Homenagem ao grande Carlos! Não o Roberto, o Drummond mesmo. Sobre o primeiro, não caberia uma postagem.


 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Fatigado de Penumbra.

Sobre o reflexo de um vidro molhado, sinto um gosto amargo. O café já esfriou e acabou o açúcar. Acabou-se o doce, o sabor das coisas, das situações. Numa lógica mais proximal, não seria a solução comprar um açúcar novo? Acabou-se o estoque. Portanto, não há doce para o café. O único gosto que há é aquele amargo encrostado do aroma queimado de uma cafeteira. E ao lado, próximo a cesta de pão, está o jornal... Este não acabou em matéria mas, sobre aquilo que mais importava naquelas palavras periódicas, acabou-se. As boas notícias. Não há mais... Não verei - talvez - a esperança de uma melhoria, a diminuição de uma violência abrupta, mas sim seu crescimento exponencial... Acabou-se, portanto, o açúcar. A vida não é mais doce: o café desce quadrado sobre a leitura rápida daquelas mesmas notícias de morte e corrupção, "queda no PIB aumento da inflação";quase um jingle de campanha eleitoral, só que, ao contrário, neste partido ninguém votaria...  Mas votou. E não voltou atrás... A grande conduta está em ser aquilo que é mais fácil, acreditar que tudo pode melhorar...Já não é mais esperança, mas sim a crença em ignorar um problema, buscar outras soluções.(...) Estou cheio. "Vou me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei"? NÃO. Deixemos assim, vamos aprender a amá-lo. E talvez reconstruir a palavra esperança em todas suas esferas. A esperança é um fósforo que se acende contra o vento, lutamos para mantê-la acesa mesmo que as chances de se apagar sejam grandes. Vamos acreditar! E se mobilizar um pouco, quem sabe.
Por enquanto, vou apreciando o amargo do café... Quem disse que gosto de muito açúcar? Depende do dia; algumas vezes é melhor mais amargo para acordar. O amargo é mais poético, faz despertar o âmago do ser. Para não estragar, encerro. Mas bem que pelo menos a chuva poderia cessar e todas as famílias desabrigadas pudessem reencontrar o caminho do lar. Afinal, quem sou eu para reclamar da vida?

Porto Alegre, Novembro de 2015.
Perambulando na Penumbra.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sobre o título

Decidi por criar esta página. Não tenho a intenção de ser um líder messiânico e reunir seguidores. Ao contrário, precisava de uma forma mais prática para armazenar as reflexões, as inspirações, pirações et cetera. do meu quotidiano. Assim já caio na explicação do título: Por que Ins-pirações com um travessão separando o prefixo? E quem usa Quotidiano? Não sei a resposta da segunda pergunta, mas o motivo da primeira está simplesmente no fato de a criação artística anda com a "inlucidez", algo normal. Quero trazer isso de forma periódica, mas sem cair naquela mesmice de textos de blog's ou situações banalizadas, já retratadas. Não serei falso de dizer que uso a palavra ''quotidiano" sempre e que sou um arcaico, quase do barroco. Muitos antes disso( vide frase do Manuel de Barros na descrição) quero algo espontâneo e tranquilo... Enfim, eu só quero registrar e praticar. Registrar, pois necessito entrar aqui daqui alguns anos e talvez pensar: "Como eu escrevia textos idiotas", "olha que foto horrível"; e em seguida, pensaria que o idiota é super legal e,talvez, publicaria um livro cheio de coisas idiotas e venderia pelo mundo. Ou guardarei no meu íntimo e construirei meu livro de diversas formas, mas todas preservando a arte do escrever. Pois como disse Voltaire: "A escrita é a pintura da voz."

Mesa de trabalho do escritor Charles Dickens